Sto. Agostinho
Sermão sobre os Pastores
VII, 14 - «Não reconduzis as ovelhas que se desgarraram, não procurais as que andam perdidas». Encontramo-nos neste mundo entre as mãos de ladrões e os dentes de lobos furiosos; por isso, ante estes perigos vos pedimos que não deixeis de orar. Além disso, há ovelhas que são rebeldes. Se procuramos os que se extraviaram por sua culpa e para sua perdição, dizem que nada temos com isso e respondem-nos: «Que quereis de nos? Porque nos procurais»? E não compreendem que a razão por que os procuramos e queremos salvar e precisamente o facto de andarem errantes e perdidos. «Se estou no erro - dizem-nos - se me perco, que te importa a ti; porque me procuras»? Justamente por que estás no erro, quero levar-te ao bom caminho; porque andas perdido, quero encontrar-te.
«Eu quero andar assim errante - replicam - quero andar assim perdido». Queres andar assim errante, assim perdido? Mas, com mais força ainda, não o quero eu. Digo-te claramente: quero ser importuno. Porque ressoam aos meus ouvidos as palavras do Apostolo: «Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente». Oportunamente para quem? Inoportunamente para quem? Oportunamente para quem quer ouvir, inoportunamente par quem não quer ouvir. Porque quero ser inoportuno, não hesito em dizer-te: «Tu queres errar, tu queres perder-te, mas não o quero eu. Não o quer principalmente Aquele que me faz tremer. Se eu quisesse também o teu erro e perdição, repara no que Ele diz, ouve como Ele me adverte: "Não reconduzis as ovelhas que se desgarraram, não procurais as que andam perdidas". Hei-de ter mais medo de ti do que d'Ele? «Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo». Não tenho medo de ti. Não podes derrubar o tribunal de Cristo e erigir o tribunal de Donato.
Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Quer queiras quer não, e isso que farei. E ainda que, ao procurar-te, os espinhos das silvas me rasguem a pele, passarei pelas veredas mais estreitas, saltarei todas as sebes e correrei por toda a parte, enquanto me der força o Senhor que me faz tremer. Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Se não queres que eu sofra, não te extravies, não andes perdido.
15 - E não basta quanta sofro ao ver-te errante e perdido. Muito temo que venha a chegar a matar as ovelhas fortes e sadias se te abandono a ti. Repara no que se segue: «E matais as ovelhas fortes e sadias». Se eu for negligente em procurar o que se extravia e perde, também o que é forte e sadio sentirá a tentação de se extraviar e perder. Desejo lucros exteriores, mas temo mais os danos interiores. Se me mostrasse indiferente perante o teu extravio, o que é forte, ao ver isto, pensaria que é uma coisa sem importância passar à heresia. Se não te procuro a ti que te perdeste, quando aparecer alguma comodidade no mundo que justifique a mudança, dir-me-á a ovelha forte que está perto de se perder: «Deus está aqui e está ali; que mais faz? Isto é obra de homens conflituosos; Deus pode adorar-se em toda a parte». Se por acaso Ihe disser algum donatista: «Não te darei a minha filha se não tomas o meu partido», será necessário que ele pense e diga: «Se nada houvesse de mal em pertencer ao partido destes, os nossos pastores não diriam tantas coisas contra eles, não se preocupariam tanto com o seu extravio». Mas se deixamos de o dizer e nos calamos, dirá o contrário: «Certamente, se fosse coisa reprovável pertencer ao partido de Donato, falariam contra ele, refutá-Io-iam, esforçar-se-iam por os vencer. Se estivessem transviados, reconduzi-los-iam; se se perdessem, buscá-Ios-iam». Não é por acaso, pois, que depois de ter dito: «matastes a ovelha gorda», acrescenta concluindo: «acabastes com a forte». Isto seria uma repetição senão fosse pelo que antes dissemos: «Não reconduzistes a extraviada, e não procurastes a que estava perdida», e assim fazendo «matastes a forte».


