quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Sto. Agostinho


Sermão sobre os Pastores

VII, 14 - «Não reconduzis as ovelhas que se desgarraram, não procurais as que andam perdidas». Encontramo-nos neste mundo entre as mãos de ladrões e os dentes de lobos furiosos; por isso, ante estes perigos vos pedimos que não deixeis de orar. Além disso, há ovelhas que são rebeldes. Se procuramos os que se extraviaram por sua culpa e para sua perdição, dizem que nada temos com isso e respondem-nos: «Que quereis de nos? Porque nos procurais»? E não compreendem que a razão por que os procuramos e queremos salvar e precisamente o facto de andarem errantes e perdidos. «Se estou no erro - dizem-nos - se me perco, que te importa a ti; porque me procuras»? Justamente por que estás no erro, quero levar-te ao bom caminho; porque andas perdido, quero encontrar-te.


«Eu quero andar assim errante - replicam - quero andar assim perdido». Queres andar assim errante, assim perdido? Mas, com mais força ainda, não o quero eu. Digo-te claramente: quero ser importuno. Porque ressoam aos meus ouvidos as palavras do Apostolo: «Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente». Oportunamente para quem? Inoportunamente para quem? Oportunamente para quem quer ouvir, inoportunamente par quem não quer ouvir. Porque quero ser inoportuno, não hesito em dizer-te: «Tu queres errar, tu queres perder-te, mas não o quero eu. Não o quer principalmente Aquele que me faz tremer. Se eu quisesse também o teu erro e perdição, repara no que Ele diz, ouve como Ele me adverte: "Não reconduzis as ovelhas que se desgarraram, não procurais as que andam perdidas". Hei-de ter mais medo de ti do que d'Ele? «Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo». Não tenho medo de ti. Não podes derrubar o tribunal de Cristo e erigir o tribunal de Donato.


Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Quer queiras quer não, e isso que farei. E ainda que, ao procurar-te, os espinhos das silvas me rasguem a pele, passarei pelas veredas mais estreitas, saltarei todas as sebes e correrei por toda a parte, enquanto me der força o Senhor que me faz tremer. Hei-de reconduzir quem se extravia, hei-de procurar quem anda perdido. Se não queres que eu sofra, não te extravies, não andes perdido.


15 - E não basta quanta sofro ao ver-te errante e perdido. Muito temo que venha a chegar a matar as ovelhas fortes e sadias se te abandono a ti. Repara no que se segue: «E matais as ovelhas fortes e sadias». Se eu for negligente em procurar o que se extravia e perde, também o que é forte e sadio sentirá a tentação de se extraviar e perder. Desejo lucros exteriores, mas temo mais os danos interiores. Se me mostrasse indiferente perante o teu extravio, o que é forte, ao ver isto, pensaria que é uma coisa sem importância passar à heresia. Se não te procuro a ti que te perdeste, quando aparecer alguma comodidade no mundo que justifique a mudança, dir-me-á a ovelha forte que está perto de se perder: «Deus está aqui e está ali; que mais faz? Isto é obra de homens conflituosos; Deus pode adorar-se em toda a parte». Se por acaso Ihe disser algum donatista: «Não te darei a minha filha se não tomas o meu partido», será necessário que ele pense e diga: «Se nada houvesse de mal em pertencer ao partido destes, os nossos pastores não diriam tantas coisas contra eles, não se preocupariam tanto com o seu extravio». Mas se deixamos de o dizer e nos calamos, dirá o contrário: «Certamente, se fosse coisa reprovável pertencer ao partido de Donato, falariam contra ele, refutá-Io-iam, esforçar-se-iam por os vencer. Se estivessem transviados, reconduzi-los-iam; se se perdessem, buscá-Ios-iam». Não é por acaso, pois, que depois de ter dito: «matastes a ovelha gorda», acrescenta concluindo: «acabastes com a forte». Isto seria uma repetição senão fosse pelo que antes dissemos: «Não reconduzistes a extraviada, e não procurastes a que estava perdida», e assim fazendo «matastes a forte».



quarta-feira, 18 de Novembro de 2009


S. João Maria Vianney VII


Excertos da encíclica «Sacerdotii Nostri Primordia», de João XXIII, no centenário da morte do cura de Ars (1959).

Das responsabilidades pastorais

Mas se, em certas horas, ele se sentiu assim acabrunhado pelo seu cargo excepcionalmente pesado, é precisamente porque tinha uma concepção heróica do seu dever e das suas responsabilidades de pastor. Com efeito, nos primeiros anos de seu ofício paroquial elevava aos céus a prece suplicante: "Meu Deus, concedei-me a conversão da minha paróquia, sujeito-me a sofrer o que quiserdes, durante toda a minha vida!" E obteve do céu essa conversão. Mas, mais tarde, confessava: "Quando vim para Ars, se tivesse previsto os sofrimentos que lá me esperavam, teria morrido imediatamente, de medo?" A exemplo dos apóstolos de todos os tempos, ele via na cruz o grande meio sobrenatural de cooperar na salvação das almas que lhe estavam confiadas. Por elas, sofria, sem se queixar, calúnias, incompreensões e contradições; por elas, aceitou o verdadeiro martírio físico e moral de uma presença quase ininterrupta no confessionário, todos os dias, durante trinta anos; por elas, lutou como atleta do Senhor contra os poderes infernais; por elas, mortificou seu corpo. E é conhecida a sua resposta a um colega que se queixava da pouca eficácia do seu ministério: "Rezastes, chorastes, gemestes, suspirastes. Mas porventura jejuastes, fizestes vigílias, dormistes sobre o chão duro, fizestes penitências corporais? Enquanto não o fizerdes, não julgueis que fizestes tudo!" (n.º 43)


(...) "O grande mal para nós, párocos, deplorava o Santo, é que a alma se deixe entibiar." Considerava isso um estado perigoso do pastor a quem não impressiona ver tantas ovelhas que lhe estão confiadas vivendo na sordidez do pecado. E, para melhor entender ainda os ensinamentos do cura d'Ars, que "estava convencido que, para fazer bem aos homens, é preciso amá-los", examine-se cada um sobre a caridade que o anima para com aqueles que Deus confiou aos seus cuidados e pelos quais Cristo morreu! (n.º 44)


Da pregação

Conhece-se o trabalho solícito e perseverante a que se obrigou para bem cumprir este dom do seu cargo, "primeiro e máximo dever", segundo o Concílio de Trento. Os seus estudos, tardiamente feitos, foram laboriosos, e os sermões custaram-lhe no começo não poucas vigílias. Mas que exemplo para os ministros da palavras de Deus! Alguns não hesitam em desculpar, sem razão, a falta de zelo nos estudos, invocando a pouca erudição do Santo. Deveriam antes imitar a coragem com que se tornou apto para tão grande ministério, segundo a medida dos dons que lhe foram repartidos, estes, aliás, não eram tão poucos como por vezes se afirma, porque "tinha uma inteligência límpida e clara". (n.º 47)


Foi com toda a razão que o nosso predecessor de feliz memória, Pio XII, não hesitou em apresentar como modelo aos pregadores da cidade eterna o humilde pároco de aldeia. "O santo cura d'Ars não tinha, por certo, o génio natural dum P. Ségneri ou dum Benigno Bossuet; mas a convicção viva, clara e profunda, de que estava animado, vibrava na sua palavra, brilhava nos seus olhos, sugeria à sua imaginação e sensibilidade ideias, imagens, comparações justas, apropriadas, deliciosas, que teriam encantado um S. Francisco de Sales. Tais pregadores conquistam o auditório. Àquele que está cheio de Cristo não será difícil conquistar os outros para Cristo." Estas palavras descrevem à maravilha o cura d'Ars, catequista e pregador. Quando, no fim da vida com a voz enfraquecida, já não se podia fazer ouvir por todo o auditório, era ainda pelo olhar de fogo, pelas lágrimas, pelos gemidos de amor de Deus ou pela expressão de dor ao simples pensamento do pecado, que convertia os fiéis atraídos para junto da sua cátedra. Com efeito, quem não ficará impressionado pelo testemunho duma vida tão inteiramente votada ao amor de Cristo? (n.º 49)


Até à santa morte, S. João Maria Vianney conservou-se assim fiel à missão de instruir o povo e os peregrinos que enchiam a sua igreja, a denunciar "a tempo e fora de tempo" (2 Timóteo 4,2), o mal sob todas as formas, sobretudo a elevar as almas para Deus, porque "preferia antes mostrar o lado atraente da virtude, do que a fealdade do vício". Este humilde padre tinha, com efeito, compreendido em alto grau a dignidade e a grandeza do ministério da Palavra de Deus: "Nosso Senhor, que é a própria Verdade - dizia ele - não faz menos caso da sua Palavra do que do seu corpo". (n.º 50)

terça-feira, 17 de Novembro de 2009


S. João Maria Vianney VI


Excertos da encíclica «Sacerdotii Nostri Primordia», de João XXIII, no centenário da morte do cura de Ars (1959).



Da piedade eucarística

A oração do cura d'Ars, que passou por assim dizer os trinta últimos anos de vida na igreja onde o retinham os seus inúmeros penitentes, era sobretudo uma oração eucarística. A sua devoção para com nosso Senhor, presente no Santíssimo Sacramento do altar, era verdadeiramente extraordinária. "Está ali - dizia - aquele que tanto nos ama; por que nós não havemos de amá-lo?" E, por certo, ele amava-o e sentia-se como que irresistivelmente atraído para o sacrário. Explicava ele aos seus paroquianos: "Para bem rezar não há necessidade de falar tanto! Sabemos pela fé que Deus está ali, no sacrário; abrimos-lhe o nosso coração e sentimo-nos felizes por ser admitidos à sua presença. É a melhor maneira de rezar". Não perdia ocasião de inculcar aos fiéis o respeito e o amor à divina presença na Eucaristia, convidando-os a aproximarem-se com frequência da Sagrada mesa; e dava-lhes exemplo desta profunda piedade: "Para se convencerem disso, referiram as testemunhas, bastaria vê-lo celebrando a missa, e fazendo a genuflexão ao passar diante do sacrário". (n.º 28)



Da missa

(...) E o Santo, que tinha o "hábito heróico de oferecer-se em sacrifício pelos pecadores", derramava abundantes lágrimas "ao pensar na infelicidade dos padres que não correspondem à santidade da sua vocação". (n.º 37)



Do zelo apostólico

Sem dúvida, não se trata aqui de relembrar a admirável história deste humilde pároco de aldeia, cujo confessionário foi, durante trinta anos, assediado por multidões tão numerosas que certos espíritos fortes da época ousaram acusá-lo de "perturbar o século XIX", nem de tratar de todos os métodos de apostolado, com que ele se desempenhava do seu ofício e que nem sempre se podem aplicar em nossos dias. Basta-nos lembrar, sobre este ponto, que o Santo foi no seu tempo um modelo de zelo pastoral nesta aldeia de França, onde a fé e os costumes se ressentiam ainda dos abalos da Revolução. "Não há muito amor de Deus nessa paróquia, tereis vós de o despertar", disseram-lhe quando para lá o mandaram. Apóstolo infatigável, hábil e sagaz para conquistar a juventude e santificar os lares, atento às necessidades humanas das suas ovelhas, próximo da sua vida, trabalhando sem descanso por estabelecer escolas cristãs e promover missões paroquiais, ele foi na verdade, para o seu pequenino rebanho, o bom pastor, que conhece suas ovelhas e as livra dos perigos e conduz com fortaleza e suavidade. Sem dar por isso, não fazia ele seu próprio elogio nesta apóstrofe de um dos seus sermões: "Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus: eis o maior tesouro que Deus pode conceder a uma paróquia." (n.º 40)